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BE Castanheira de Pera

Biblioteca Escolar do Agrupamento de Escolas Dr. Bissaya Barreto - Castanheira de Pera

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Biblioteca Escolar do Agrupamento de Escolas Dr. Bissaya Barreto - Castanheira de Pera

Jorge de Sena (1919 - 1978)

01.07.16

Jorge de Sena (1919 - 1978)

 

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Jorge Cândido Alves Rodrigues Telles Grilo Raposo de Abreu de Sena GCSE (Lisboa, 2 de Novembro de 1919 —Santa Barbara, Califórnia, 4 de Junho de 1978) foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário português.

 

Filho único de Augusto Raposo de Sena, natural de Ponta Delgada e comandante da marinha mercante, e de Maria da Luz Telles Grilo de Sena, natural da Covilhã e dona-de-casa. Ambas as famílias eram da alta burguesia, a paterna de suposta linhagem aristocrática de militares e altos funcionários, e a materna de comerciantes ricos do Porto. Segundo relata no seu conto Homenagem ao Papagaio Verde, teve uma infância recolhida, solitária e infeliz, o que fez com se tornasse introspectivo, observador e imaginativo.

 

Fez os estudos secundários no Liceu Camões, onde foi aluno de Rómulo de Carvalho. Era um jovem que lia avidamente, tocava piano e escrevia poemas. Na Faculdade de Ciências de Lisboa, fez os exames preparatórios com as notas mais elevadas.

 

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 Escola Naval, 1937: cadete Jorge de Sena.

 

 

Sena nutria a ideia algo romântica de se tornar oficial da marinha, seguindo as pisadas do pai. Em 1938, aos 17 anos, entrou para a Escola Naval como 1.º do seu curso. A 2 de outubro de 1937, iniciou a sua viagem de instrução a bordo do navio-escola Sagres. Visitou os portos de S. Vicente, Santos, Lobito, Luanda, S. Tomé e Dakar, chegando a Lisboa no final de Fevereiro de 1938. O contacto com a imensidão do oceano, a azáfama da vida a bordo e o movimento e mudança constantes agradaram ao jovem Sena, mas nem tudo correu bem, pois se era brilhante, intelectualmente, não mostrava a aptidão física exigida.

 

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 Jorge de Sena

 

 

Apesar da sua inclinação natural para a literatura, Sena frequenta, em Setembro de 1942, o primeiro ciclo do Curso de Oficiais Milicianos, o qual abandona, enfrentando graves problemas de saúde. Depois de um ano letivo em Lisboa, regressa, em 1943, apoiado financeiramente por Ruy Cinatti e José Blanc de Portugal, à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (que iniciara em 1940) para frequentar o curso de Engenharia Civil, concluindo-o em 1944.

 

O curso pouco o entusiasmou, mas durante todo esse tempo escreveu bastantes poemas, artigos, ensaios e cartas. Desde os 16 anos que escrevia e em 1940, sob o pseudónimo de Teles de Abreu, publicou os seus primeiros poemas na revista Cadernos de Poesia, dirigida por Cinatti, Blanc de Portugal e Tomás Kim. Em 1942, publica o seu primeiro livro de poemas, Perseguição, que não impressiona muito o seu amigo e crítico João Gaspar Simões e Adolfo Casais Monteiro considera-o um livro revelador mas difícil.

 

Em 1947, Sena inicia a sua carreira de engenheiro, que durou 14 anos. Trabalhou como engenheiro civil na Câmara Municipal de Lisboa, na Direcção-Geral dos Serviços de Urbanização e na Junta Autónoma das Estradas (JAE), onde permanecerá até ao seu exílio para o Brasil em 1959.

 

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 Maria Mécia de Freitas Lopes, fotografada por Fernando Lemos.

 

 

Em 1940, no Porto, Jorge de Sena conhece e torna-se amigo de Maria Mécia de Freitas Lopes (irmã do crítico e historiador literário Óscar Lopes), começando a namorar em 1944 e casando-se em 1949. Jorge de Sena e Mécia de Sena tiveram nove filhos.

 

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 Jorge de Sena e Mécia F. Lopes

 

 Trabalhou incansavelmente, para sustentar a crescente família. Além do seu absorvente trabalho diurno na JAE (que lhe possibilitou viajar e conhecer o Portugal profundo), Sena também se dedicava à direção literária em editoras, à tradução e revisão de textos, ocupações que lhe roubavam precioso tempo para a investigação literária e a para a sua obra. A banalidade e a pequenez do quotidiano no Portugal de Salazar das décadas de 1940 e 1950 atormentam-no, bem assim como a mediocridade, a mesquinhez e a intriga dos meios literários, a opressão política, a censura literária, resultando num ambiente de trabalho sufocante e absolutamente frustrante, mas que não deixam de o inspirar para o poema É tarde, muito tarde na noite…

 

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 Jorge de Sena fotografado por Fernando Lemos.

 

 

Durante esses anos publica várias obras: O Dogma da Trindade Poética – Rimbaud (1942), Coroa da Terra, poesia (1946), Páginas de Doutrina Estética de Fernando Pessoa (organização), 1946, Florbela Espanca (1947), Pedra Filosofal poesia (1950), A Poesia de Camões (1951), etc. Colabora na revista Mundo Literário (1946-1948) com contos e poesia e também como crítico artístico na rúbrica cinema.

 

A sua situação como escritor e cidadão tornou-se insustentável. Como escritor, não tinha tempo livre para escrever, apenas o podia fazer de modo insuficiente e limitado à noite e aos domingos. Também o facto de não pertencer a nenhum círculo académico e a falta de apoio institucional frustrava-lhe qualquer pretensão de poder vir a editar alguma obra mais ambiciosa. Por outro lado, a sua participação numa tentativa revolucionária abortada em 12 de Março de 1959, colocou-o em posição de prisão iminente, no caso muito provável de algum dos conspiradores presos pela PIDE denunciar os que ainda se encontravam livres.

 

Em Agosto de 1959, viajou até ao Brasil, convidado pela Universidade da Bahia e pelo Governo Brasileiro a participar no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros. Tendo sido convidado como catedrático contratado de Teoria da Literatura, em Assis, no Estado de São Paulo, aproveitou essa oportunidade e aceitou o lugar, iniciando assim o seu longo exílio. Ele faz amizade com o poeta Jaime Montestrela, que dedicou o seu livro Cidade de lama. Por motivos profissionais, teve de adotar a cidadania brasileira.

 

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Em 1961, Jorge de Sena foi ensinar Literatura Portuguesa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara. Em 1964, depois de vencer alguns preconceitos académicos pelo facto de ser licenciado em Engenharia, Jorge de Sena defendeu a sua tese de doutoramento em Letras (Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular), tendo obtido os títulos académicos "com distinção e louvor".

 

O período de seis anos que passou no Brasil foi muito produtivo. Finalmente, tinha toda a disponibilidade para se dedicar à sua obra com a devida profundidade e profissionalismo. Poesia, teatro, ficção, ensaísmo e investigação. Parte do romance Sinais de Fogo e a totalidade dos contos Novas Andanças do Demónio foram escritos neste período.

 

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A degradação da situação política no Brasil, com a instalação de uma ditadura militar a partir de Março de 1964, fez com que Jorge de Sena, mais do que nunca avesso a prepotências, aceitasse um convite para ensinar Literatura de Língua Portuguesa na Universidade de Wisconsin, para partir para os Estados Unidos em Outubro de 1965. Em 1967 foi nomeado catedrático do Departamento de Espanhol e Português da referida universidade.

 

De 1970 até 1978 foi catedrático efetivo de Literatura Comparada na Universidade da Califórnia, em Santa Barbara. Apesar da satisfação de ensinar e da amizade que os alunos lhe dedicavam, Sena não foi feliz. Queixava-se da "medonha solidão intelectual da América" onde não havia "convívio intelectual algum" e da esterilidade e espírito burguês do meio académico, que não se interessava pela sua obra.

 

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 Jorge de Sena ladeado por Óscar Lopes (esq.) e Eugénio de Andrade (dta).

 

 

Quando se deu o 25 de Abril, Jorge de Sena desejou regressar definitivamente a Portugal, ansioso por dar a sua colaboração para a construção da democracia. Sena visitou Portugal, contudo, nenhuma universidade ou instituição cultural portuguesa se dignou convidar o escritor para qualquer cargo que fosse, facto que muito o desiludiu e amargurou, decidindo continuar a viver nos Estados Unidos da América, onde tinha a sua carreira estabelecida.

 

Jorge de Sena morreu em 4 de Junho de 1978, aos 58 anos, de cancro.

 

In Wikipédia

 

Aurélia de Sousa (1866 - 1922)

15.06.16

Aurélia de Sousa (1866 - 1922)

 

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 Aurélia de Sousa ao lado do seu autorretrato,

fotografia de Aurélio da Paz dos Reis.

 

 

Maria Aurélia Martins de Souza nasceu a 13 de junho de 1866, em Valparaíso, no Chile, onde o pai fazia então fortuna na construção do caminho-de-ferro. Aurélia vem para o Porto com a família em 1869, aos três anos. O dinheiro amealhado na emigração permitiu ao pai adquirir uma boa casa nas margens do Douro, a Quinta da China, cujos interiores e jardins, e também as belas vistas sobre o rio, servirão de tema a muitas das pinturas de Aurélia – hoje propriedade de António Mota, da construtora Mota-Engil.

 

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 "Autorretrato", Óleo s/ tela, c. 1900.

 

 

O pai de Aurélia morre quando esta tinha oito anos, e a Quinta da China passa a ser um espaço essencialmente feminino, já que a pintora tinha cinco irmãs e apenas um irmão, ao qual se juntará depois mais um  rapaz, fruto de um segundo casamento da mãe. Um dos mais notáveis quadros expostos na Casa Museu Marta Ortigão Sampaio é um óleo mostrando a mãe da artista, manifestamente inspirado no célebre quadro em que o pintor americano James Whistler pintou a sua própria mãe, Arrangement in Grey and Black No.1, de 1871, que estava exposto em Paris, diz Filipa Vicente, no período em que a pintora portuguesa ali estudou.

 

 

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 "Varanda da Quinta da China", óleo s/ tela, Aurélia de Sousa.

 

 

Depois de ter tido, desde os 16 anos, aulas particulares de desenho e pintura com Costa Lima, inscreve-se em 1893, juntamente com a sua irmã Sofia, na Academia de Belas-Artes do Porto, onde foi aluna de Marques de Oliveira. Segue para Paris em 1899, para estudar na já referida Académie Julian, e Sofia junta-se-lhe logo no ano seguinte.

 

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 "Retrato", óleo s/ tela, Aurélia de Sousa, 1896.

 

 

Sem direito a bolsas, que não eram atribuídas depois dos 25 anos, as duas irmãs só conseguem viver e estudar em Paris graças ao apoio financeiro dos seus cunhados, José Augusto Dias, casado com Helena, a irmã mais velha, e Vasco Ortigão Sampaio, casado com Estela, cuja importante coleção de arte foi herdada e prosseguida pela filha Marta, também ela pintora; a casa-museu com o seu nome acolhe agora a exposição dedicada à tia.

 

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 "A costura", óleo s/ tela, Aurélia de Sousa.

 

 

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 "Cena familiar", óleo s/ tela, Aurélia de Sousa, no MNSR.

 

 

Aurélia regressa ao Porto em 1902, não sem antes ter viajado com a irmã por vários países europeus, e nos 20 anos seguintes, até à sua morte, vive com a família na Quinta da China, onde dispõe de um atelier, e decerto também de um laboratório de revelação de fotografias, e participa ativamente nos meios artísticos do seu tempo.

 

Colabora em várias exposições coletivas, vai vendendo algumas obras – “pintou muitas flores, porque vendiam bem, era o gosto da época”, diz Filipa Vicente –, dá aulas particulares, desenvolve um significativo trabalho como ilustradora e experimenta outras técnicas, também documentadas nesta exposição, como a pintura de azulejo. E fotografa. Quer para preencher os álbuns de família, quer para a auxiliar na sua pintura, quer como “prática artística”, num estilo “pictorialista”, que repercute na nova arte preocupações próprias da pintura.

 

 

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 Vaso com flores, Óleo s/ tela, Aurélia de Sousa.

 

 

Aurélia de Sousa morre no Porto, a 26 de maio de 1922.

 

A primeira retrospectiva da obra de Aurélia de Sousa foi realizada 14 anos após a sua morte, em 1936, no Salão de Belas Artes do antigo Palácio de Cristal. Estiveram expostas 266 obras, quase todas vindas de colecções particulares. Uma exposição com ambição semelhante só voltaria a ocorrer em 1973, no Soares dos Reis, onde se mostraram 161 peças. É sobretudo aí que arranca o movimento mais contemporâneo de consagração de Aurélia de Sousa, que passa também pelos trabalhos de Raquel Henriques da Silva ou, entre outros, de Maria João Lello Ortigão de Oliveira, cuja tese de doutoramento, Aurélia de Souza em Contexto: a Cultura Artística no Fim de Século, veio revelar em 2002 várias obras da pintora até então desconhecidas. 

 

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 "A sombra", óleo s/ tela, Aurélia de Sousa, c. 1900-1910.

 

 

Dividida entre a Casa Museu Marta Ortigão Sampaio, no Porto, e o Museu da Quinta de Santiago, em Leça da Palmeira, Matosinhos, a exposição Aurélia, mulher artista, inaugurada esta segunda-feira, celebra os 150 anos de um grande nome da arte portuguesa, Aurélia de Sousa (1866-1922), autora de centenas de pinturas, muitas delas inacessíveis ao público, e de um enorme acervo de fotografias, quase todo ainda por estudar.

 

Esta dupla exposição co-organizada pelas autarquias do Porto e de Matosinhos homenageia Aurélia de Sousa, que só nas últimas décadas tem sido reconhecida como uma das artistas portuguesas de maior relevo, ao lado de Columbano Bordalo Pinheiro, Henrique Pousão ou António Carneiro.

 

In Público.pt/Cultura Ípsilon

NB: Texto editado pela Equipa BE.